A MULHER que não sorri

A MULHER SEM SORRISO

 

A mulher que não sorri
Arqueada como uma vírgula, caminhava lentamente até o outro lado da rua com as roupas encharcadas, e os bolsos cheios de tempo. Olhar aquela cena era ter certeza de que a chuva não tinha mesmo pressa de molhar, era a certeza do pouco a se importar.

Seguia ela com seus trapos e andrajos atravessando a rua sem se importar com a chuva. Ele fotografava pessoas fugindo da chuva, mas não se espantava com a calma daquela senhora.

A Chuva caía encorpada e os passantes se abrigavam fugidios nas marquises. Ela não.

lentamente ela largou as sacolas no chão rente à porta e procurou a chave nos bolsos. Encontrou apenas o tempo que há muito estava ali guardado. Era quase uma estatua parada procurando as chaves, e a chuva caindo sem pudor a encharcar seu chapéu de abas curtas. Seu comportamento era um desleixo em forma de desdém com o céu.

Insistiu dentro das sacolas, e com as mãos trêmulas quase cobertas pelo casaco maior que seu corpo, achou um molho grande de chaves. Analisou-as detidamente, procurando a única que servia na porta. Destrancou-a e entrou.

Sentado no mesmo bar, durante os invernos sempre sombrios e solitários, ele buscou na máquina fotográfica o banco das imagens tiradas naquela tarde….Nada!! nunca conseguia um ângulo novo, um novo detalhe a fotografar daquela senhora. Era sempre o mesmo rito. Caminhava com o mesmo compasso na chuva. Não importava se fosse fina, grossa, ou turbulenta.

Sua desídia era a chuva. Uma lágrima da natureza que parecia nem se importar em receber sobre seu corpo. A chuva era para ela um lamento do céu. Um lamento que ela há muito não ouvia mais.

Há muitos anos ele colecionava fotografias tiradas furtivas de pessoas correndo da chuva. Eram lindas demonstrações da urgência da vida, do sentido da pressa, da busca de chegar. Já fizera duas exposições desde que começara a carreira de fotógrafo, quando mudou-se para aquele bairro.

Era um artista colecionador de momentos.

Mais do que ver aquela mulher andando calmamente na chuva, intrigava-lhe nunca tê-la visto em dias de sol. Já havia tentado fotografá-la sem sucesso nessas ocasiões. Ela devia evaporar com o sol pensara ele uma ocasião.

De repente, superou-se em sua surpresa! Ela voltara, agora sem as sacolas.

Vinha em sua direção. Como de costume, atravessou a rua lentamente sem se importar com nada. Era como se não tivessem os carros, os prédios ao redor, as luzes da cidade já acesas, a chuva. Nada havia ali. Apenas ela.

Coroando sua surpresa, ela veio em sua direção, e perguntou-lhe se podia sentar-se em sua mesa já sentando-se, para em seguida perguntar seu nome.

Augusto, ele respondeu.

– porque você gosta da chuva? Ela perguntou-lhe.

– aceita um café? Perguntou ele.

Impressionado com a iniciativa daquela senhora que há muito lhe intrigava, ficou sem jeito.

– só respondo se a Senhora aceitar um café.

– Eu aceito. Mas só bebo se você me responder.

-Ok, mas eu só respondo se a Senhora me disser porque não se importa em se molhar.

A velha fitou-o demoradamente enquanto ele encontrava rápido um garçom para pedir o café, com medo de que ela se fosse. O instante era precioso demais para perdê-lo com a demora. A pressa dele era um contraste com a mansidão daquela mulher.

– A senhora sabia que a observo há dois anos sempre que chove, desta mesma mesa de bar?

– Sim eu sei, eu pareço não ver, mas eu vejo. Moro neste bairro há 58 anos. Sei tudo que acontece aqui. Agora me diga, porque você gosta da chuva?

O café chegou e fumegava cheiroso.

– A senhora não vai beber?

-Estou esperando a resposta. Já aceitei o café, mas só bebo se você me responder.

Ele respirou fundo olhando-a nos olhos cansados de onde vinha uma profundidade quase soturna. Sentia-se desnudo com aquele olhar.

– eu fico triste quando chove. Não gosto da chuva. Por isso eu a fotografo tanto através das pessoas que fogem dela. Faço isso há tempos e nunca consegui uma imagem sequer da senhora furtando-se de se molhar.

A Velha decidiu beber seu café. Sorveu cada gole com um prazer silencioso.

-Agora que já saciei sua curiosidade e que a Senhora já bebeu o café, posso lhe perguntar porque a senhora não foge nunca da chuva como todos, e porque não a vejo em dias de sol?

– A chuva são lágrimas do céu. Se vem lá de cima, penso que alguém se importa comigo e deixo-me molhar. Quando chego em casa, meu gato me lambe e sinto que não estou só.

Do alto de sua jovialidade, ele a observava aproveitando cada movimento de sua fala. Ela sempre fora um enigma para ele. Vendo-o tão interessado, ela continuou.

– O sol, faz cores demais ao seu redor. Cores merecem sorrisos. Eu não sorrio há 20 anos. Por isso não saio quando tem sol.

Dizendo isso, agradeceu o café e levantou-se.

Por favor, fique mais um pouco pediu ele segurando-lhe pelas mãos.

– não meu filho, eu não ficarei. Tenho que ir, pois parou de chover e não posso sorrir.

Ele beijou-lhe as mãos em gratidão, e ela finalmente sorriu.

– Viu? disse ela. Deixei meus sorrisos pendurados no guarda-roupa junto com minhas roupas de verão há 20 anos.

E seguiu através da rua sorrindo seu sorriso sem dentes.

FIM

 

 

 

 



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