O taxi é um divã

0104

 

O Taxi é um Divã

(uma história com a cara do Brasil)

 

Taxista é um tipo sempre curioso. Se quer ouvir a voz do povo de um lugar, escute um deles. Um falante claro, pois taxista conheço apenas dois tipos: os que não falam, e os que falam.

Treinados pela escuta atenta da voz da rua, conhecem e entendem um pouco de tudo, e são o termômetro para muitos assuntos.

Aliás, acho que o INMETRO deveria sempre consultá-los para o controle de qualidade das coisas. Qualquer coisa, pois pela convicão e fluência verbal dos tipos falantes, tenho a sensação que sabem mesmo de tudo.

Com os olhos `a deriva do trânsito, se formam na universidade da vida, e parecem enxergar o que ninguém mais vê.

Como nunca ouvi nenhuma criança dizer que vai ser taxista quando crescer, acho que se tornam taxistas por uma confluência de fatores e ausência de outros.

Isso parece ser uma regra mundial.

Para os colecionadores de histórias, são sempre um prato cheio.

Em Nova York por exemplo, em meia dúzia de taxis, se pode encontrar mais histórias do que no livro das mil e uma noites.

Sua casa é a rua, e os clientes sua família extensa.

Os mais carentes, vão conversando mesmo sem se importar se estamos ou não interessados na conversa. E em verdade, nunca estamos.

Para estes, a corrida é praticamente uma sessão de terapia.

Sem ver o rosto do interlocutor, o falante sente-se como se estivesse no divã, e sem constrangimento, confidencia traumas e desejos.

Outro dia peguei um taxi de manhã cedinho, e no trajeto dos 15 km entre minha casa e o aeroporto, o taxista me contou sua vida inteira, o que foi proviencial, pois me fez despertar do estado quase catatônico que me acomete na meia hora seguinte ao acordar.

Um pedaço da vida nos Estados Unidos, um filho americano, uma filha brasileira formada em biologia com mestrado na Inglaterra desempregada, e um desejo frustrado por nunca ter chamado alguém de pai.

Indignado com o governo como todos, falou mal de gregos e troianos, queixou-se que a filha estudada não tem lugar neste País, e finalizou afirmando, que perdeu tudo na américa quando foi deportado, mas espera ansioso o filho completar 18 anos para ter direito `a cidadania americana e voltar.

– Aqui não somos tratados com respeito.

-Fui adotado e depois abandonado. Minha mãe me trocou na maternidade por um pacote de cigarros.

-Quero poder dar a meus filhos o que eu não tive: respeito.

Não ressente-se da vida, acha mesmo que quando chegar na América com 63 anos, “meio gasto” como disse, estará vivendo um presente, e emendou:

– Somos um milagre da biologia. Minha filha me explicou: uma luta de tantos espermatozoides!

– Vencemos, e estamos aqui. Sou grato por isso, mesmo que eu morra sem poder chamar alguém de pai.

A sessão de terapia dele acabou na chegada ao aeroporto, e ainda fui eu quem pagou a conta. Mas não saí de mãos vazias. Ganhei a história, e não precisei comprar revista.

 

 

 

 

 

 



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *