Feira de Bologna: Um espetáculo para todos!

FEIRA DE BOLOGNA 2015: UM ESPETACULO PARA TODOS!

 

Feira de Bologna

Feira de Bologna- Itália

Participar da maior feira de literatura infantil do mundo que acontece na cidade de Bologna na Italia, é um sonho que todos que trabalham com o universo do livro infantil desejam viver.

Para falar sobre a feira deste ano, que aconteceu de 30 de março a 2 de abril, convidamos a escritora Ariadne Cantú, que participou da feira, e faz um lúcido e apaixonado depoimento deste grandioso evento.

 

Se tivesse que encontrar uma palavra para descrever este importante evento literário, a palavra seria “encantamento”.

Estar numa cidade que abriga a universidade mais antiga do mundo ocidental em funcionamento, berço dos estudos de Dante Alighieiri e Leonardo da Vinci, e vê-la reverenciar-se ‘a infância, realmente nos faz crer na possibilidade de um mundo melhor, através da valorização daquilo que é mais importante numa sociedade: as crianças.

Já havia estado na Feira Internacional do livro de Frankfurt no ano passado, mas participar da Feira de Bologna, única no gênero infantil, foi uma experiência apaixonante e enriquecedora, vivida durante quatro dias de pura imersão na preciosa arte de encantar crianças, participando de painéis e mesas de debates com especialistas de todo mundo na área da literatura, ilustração, e tradução de livros infantis. Milhares de pessoas embuídas do mesmo desejo de descobrir, aprofundar, e conhecer o que o mundo da literatura infantil pode oferecer, na certeza de que a literatura infantil significa um fator importante de crescimento da humanidade.

Olhares, palavras, relações, experiências e esperanças, tudo condensado em um único universo. Editores, ilustradores, escritores e leitores, protagonistas não só da publicação de bons livros, mas da sociedade que queremos para o nosso futuro.

O aniversário de 150 anos de Alice no País das Maravilhas, foi tema da feira deste ano, e logo na entrada principal, um imenso tapete vermelho com cartas conduzia os participantes a este precioso universo, que segundo dados oficiais, acolheu um número muito maior de participantes do que no ano passado.

Pensar na infância há um século e meio atrás, é pensar em uma infância cujo tempo tinha outra dimensão, e como tal, o temas e os envolvidos nos desafios do mundo moderno se fizeram presentes para tratar da forma mais dinâmica e abrangente tudo que diz respeito a esta arte secular.

Hoje, o tempo flui na velocidade da luz e do clic no teclado do computador, de onde se extrai quase tudo que se consome, e muita, mas muita informação.

Como essa mudança visceral trazida pela revolução tecnológica se reflete no universo das crianças, na formação de seu conhecimento, e na estruturação do progresso da humanidade, foram temas recorrentes em quase todas as discussões.

Somos uma geração analógica cuidando de uma geração digital,

uma geração que formou seu conhecimento baseado em noções de tempo totalmente diferentes das de hoje em dia, o que possibilitava uma perspectiva totalmente diversa das criações e da construção próprio conhecimento.

Neste aspecto, destaco a fala de Gianna Vitali, membro do júri do Hans Christian Andersen, o prêmio anual concedido ao melhor escritor e comparado ao nobel da literatura infantil, que no ano passado teve o brasieliro Roger Mello como ganhador.

Do alto de seus cabelos brancos e da autoridade que só aqueles que fazem a história podem ter, anunciou que era chegado o tempo de “fechar as escolas por uns dois ou três anos e reformatar a cabeça dos professores”. E acrescentou: “As crianças precisam ter tempo livre para viverem a infância, precisamos todos reaprender a ler”.

Encantada com suas palavras, convidei-a para um café que estendeu-se para um almoço regado ao melhor macarrão italiano, num dos bistrôs da Piazza Magiore. Neste encontro, Gianna contou-me sua trajetória na literatura infantil, plantada na cultura do País por seu esposo, Roberto Denti, criador da primeira biblioteca de livros infantis de Milão, e a conversa deu origem a uma amizade que encontrou no amor a literatura infantil o seu melhor fio condutor.

 

Tive também, a rica oportunidade de conversar com o alemão Jochen Weber, chefe da livraria internacional de linguagem da Alemanha, que proferiu palestra em um painel sobre as obras de Roger Mello, e fez uma análise das obras de suas obras, apresentando toda a riqueza cultural e contextual de seu trabalho.

Weber contou-me após o painel, que somente conseguiu extrair a real preciosidade do trabalho de Roger Mello quando levou os originais para uma exposição na cidade de Munique, pois ali, segundo ele, na percepção da espessura dos traços e dos materiais utilizados em suas ilustrações, percebeu a verdadeira riqueza de sua arte, já que muito se perde com as digitalizações.

 

São estas, e outras tantas observações, que mostram que o trabalho que se faz para as crianças, através da literatura tem uma dimensão tão grandiosa.

Os “silent books”, livros Silenciosos, baseados apenas em imagens,   os livros para crianças especiais, e os livros sobre temas “unespeakables”, tidos estes últimos, como os livros com temas de difícil desenvolvimento, como a morte, o câncer e as tragédias mundiais, também foram destaque com premiações e discussões aprofundadas, denotando um universo em que nada passa despercebido para proporcionar a criança o melhor e mais puro encantamento.

 

Após acompanhar tantos debates e participar de conversas enriquecedoras, pude constatar, como a impaciência, chamada de mal do século por alguns, e alardeada como um fator decorrente do progresso tecnológico, tem o efeito de uma bomba no processo educacional das crianças e adolescentes.

A revolução tecnológica trouxe uma ampliação significativa em nossa capacidade mental, entretanto, a paciência, tida como fonte primária do crescimento humano e também econômico, nasceu do ponto de vista histórico, da invenção da impressão, por tipos móveis, por Guttenberg, gerando uma explosão de livros que deram um salto no nível de alfabetização, e em termos neurológicos, nos possibilitou raciocínios mais amplos, profundos e complexos.

Segundo o especialista Andew G. Haldane, economista chefe do Banco da Inglaterra, os resultados da revolução da tecnologia da informação, ocorrido na segunda metade do século XX terá um efeito semelhante ao que teve a revolução industrial no século XVIII e a industrialização em massa no século XIX.

 

Percebo, como atenta observadora do universo infantil, que os efeitos da imaciência crônica vivida no meio estudantil são evidentes. Alunos bocejam após poucos minutos de aula e são impulsionados a ler textos cada vez mais curtos.

 

A sociedade econômica de uma maneira geral, está tomando decisões mais rápidas, em situações em que sempre se está em dois lugares ao mesmo tempo em virtude do uso quase hipnótico dos tablets e celulares.

Este fenômeno social ainda sem efeitos definidos, é uma preocupação também de quem escreve para crianças.

Afinal, todos os escritores, mesmo os bem jovens, viveram uma infância analógica movida por brinquedos e brincadeiras que ativavam da maneira mais colorida possível os reinos da imaginação.

Nossa infância foi lenta, com espaço para explorar, para sonhar e para se entediar.

 

O grande desafio, para quem se preocupa com o futuro desta infância que tem pressa de crescer e que vive os efeitos desta impaciencia, é produzir o encantamento necessário para a formação do conhecimento com um tempo infinitamente menor do que se dispunha antes.

Encantar sem ter pressa, essa seria a frase na qual eu resumiria o desafio para quem trabalha com literatura infantil nestes tempos modernos.

Estar atento as tendências e preocupações que regem o universo infantil é responsabilidade de quem opera com a literatura infantil.

Voltarei o ano que vem!

Ariadne Cantú

 

 

 



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