Uma vela para uma mulher

Pode acontecer coisa pior a uma família que perder um de seus membros de forma brutal, agressiva e inesperada?

Parece impossível, mas pode.
É o que acontece, quando essa mesma pessoa morre várias vezes.

Mayara Amaral, musicista, de 27 anos, morreu pela primeira vez  no interior de um motel, sob suspeita de ter sido estuprada por dois homens, um dos quais era seu namorado, teve seu crânio esmagado a marteladas pelos mesmos, para finalmente ter seu corpo queimado por ambos na companhia de um terceiro, em um terreno baldio.

Morreu pela segunda vez, quando teve sua intimidade estraçalhada por versões inverossímeis trazidas pela imprensa, que sugeriam uma  noitada de sexo consentido entre os três, seguida de um descontrole por parte dos usuários do martelo assassino, que desejariam roubá-la.

Morreu pela terceira vez, quando foi despersonalizada pela mídia que se apropriou vorazmente de fotos de seu facebook para estampar manchetes de um fato dantesco, despessoalizando-a,  e morreu novamente, quando sua irmã distribuiu uma carta nas redes sociais, onde invocava respeito à sua memória de mulher.

A carta, tão sincera e impactante, fez muitas das mulheres que leram, morrerem um pouco.

Mayara orquestrava muitos sonhos, um dos quais, paradoxalmente, era dar visibilidade à posição feminina na música erudita, tema que desenvolveu com afinco em sua tese de mestrado, e recentemente havia sido aceita para um doutorado.
Seus sonhos morreram com ela.

Sua memória foi coisificada, e de seu corpo sobraram apenas as mãos, que segundo o pai, após reconhece-lo no IML, disse parecerem formar uma nota musical.

Não bastava tudo que eviscerava pela imprensa afora, entrevistaram seu pai, que lívido, conseguia apenas exprimir sua perplexidade com o  contraste brutal entre a personalidade doce da filha, e a odiosa conduta de seus algozes.

O caso teve repercussão nacional e movimentos sociais se articulam para protestos contra a forma pela qual o caso foi tratado pela imprensa e por algumas autoridades.

A  morte pede silencio.
A morte pede respeito.

Perdi meu irmão, um  jornalista de 33 anos em um acidente de carro num domingo de sol, e minha família além da dor da perda, reviveu sua morte na pulverização dos fatos pela imprensa, que durante a semana inteira reprisou seu funeral na televisão. Lembro de ter chegado em uma loja na companhia de meu pai dias depois, e ter virado rapidamente um jornal que estava sobre o balcão, para que ele não visse a imagem de meu irmão dilacerada entre as ferragens, estampada na primeira pagina.

Um jornalismo saudável, investiga, colhe os fatos, traz e estimula o respeito,  não desumaniza pela sede do furo de reportagem.

Mayara nos mostra que perdemos o  rumo.
Uma sociedade que fala em sororidade, a palavra da moda para definir a irmandade entre mulheres, merece refletir sobre a forma como o crime vem sendo tratado, para que possamos fazer alguma coisa mais, do que apenas acender à esta mulher uma vela.

Mayara e sua familia merecem respeito.

Que a justiça trabalhe para manter atras das grades os criminosos.



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